27 maio 2010

Retratos

A tinta das nossas recordações está a começar a desvanecer-se. Faço um esforço, semi-cerro os olhos, mas já não lhes consigo distinguir os contornos. Estou nos teus pés, a dançar ao som de Beirut, mas, devagarinho, a música vai soando mais distante. Nado na Lagoa do Fogo, tu à minha frente nas rochas a olhares para mim e a sorrir, Nem morto me apanham aí dentro, e as colinas começam a confundir-se com o céu. Em Praga fizemos amor, fizemos amor várias vezes, clubes de jazz, a noite e a ponte a inspirar-nos, mas refiro-me especificamente àquela vez... depois de uma discussão. Subimos as escadas já reconciliados, eu a brincar com o teu rabo, tu a fugires. Tínhamos prometido não fazer amor naquela noite. Essa tinha sido a resolução da nossa discussão, mas mal nos vimos naquele quarto lindo, grande, a ponte do outro lado da janela, as roupas desapareceram e vimo-nos nus um diante do outro, despidos de preconceitos, de angústias, de medos. Foi maravilhoso, e, no entanto, agora que recordo esse momento, já não consigo distinguir bem as formas do teu corpo, a maneira como se encaixava tão bem no meu, os teus olhos em mim, a fazerem-me vir só pela intensidade com que me olhavam. Estás, devagarinho, a sair de dentro de mim. Quero guardar os teus retratos para sempre, mas cada dia te tornas menos real, e os retratos voam contigo para aquela outra realidade paralela. Aquela onde vamos ao cinema à sexta-feira à noite e tudo corre bem. Eu vôo também com os retratos, mas acordo alagada em suor, de volta para esta realidade, onde alguém se esqueceu de te dar um papel. Hoje entrei dentro de um coração em ponto gigante, as várias estruturas e o coração que batia de forma regular. Quis-te lá dentro comigo, mas tudo o que eu tinha teu era um retrato desbotado.

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