07 novembro 2023

Constato, não sei se com espanto, mas certamente horrorizada, que a minha categoria de filmes no film in é ‘filmes de conforto’. É assustador vermo-nos encaixados, reduzidos, simplificados a a uma categoria. Pensei que uma das vantagens de uma plataforma de filmes de qualidade em streaming, era poder enfim evitar categorias. Estava enganada. Encaixo na categoria ‘filmes de conforto’. Lá estão as Mulherzinhas, que eu adorava, quando era eu própria e até tão tarde era ainda uma mulherzinha e que ainda me traz boas recordações. Lá estão tantos outros. Não os vi, mas lá devem estar os filmes do Wim Wenders e tantos dos filmes sobre os quais já escrevi aqui. Categoria ‘filmes de conforto’. Não sei se pertenço a esta categoria por procurar constantemente a beleza e a poesia no dia-a-dia ou se por estar num estado de permanente negação.

21 setembro 2023

Vi o filme O Estado das Coisas, do Wim Wenders (1982). Lindo. Adorei. Comoveu-me que Lisboa e Sintra no filme sejam ainda a Lisboa e a Sintra da minha infância, entretanto quase perdida para os turistas e para os nómadas digitais. O filme é todo lindíssimo, não só pelas imagens belíssimas, mas também por aquela súbita e forçada paragem no tempo, que obriga os personagens, cada um à sua maneira, a matar lentamente o tempo. Que bonito a intimidade com que esse 'matar o tempo' está filmada. Bonito também e tenso é o pressentimento de fatalidade que paira durante todo o filme no ar. Em defesa do seu filme, da beleza das filmagens a preto e branco, da sua história, dos actores que contratou, está o realizador. Só ele não desiste. Só ele é capaz de atravessar um oceano e enfrentar o perigo para encontrar o produtor desaparecido e, assim, poder finalmente terminar o seu filme. Por fim, um desfecho magnífico. Na cena final, o realizador a empunhar a câmara de filmar como uma arma contra um assassino não visível, fez-me lembrar a Rainha Dona Amélia a bater no regicida com o ramo de flores. Trágico. Belo. Obrigada, Wim Wenders, por estes e tantos outros filmes, entre os primeiros da minha lista infindável de filmes preferidos.





28 julho 2023

O meu Es muss sein 

Ler
Escrever
Ser mãe, mulher, irmã, filha
Dormir

Não necessariamente por esta ordem.

11 abril 2023

Ryūichi Sakamoto

Uma notícia triste surgiu, mesmo antes do meu aniversário - a morte de Sakamoto.

Na folha onde há tantos anos imprimi a partitura da música Aqua, consegue-se ler no canto superior esquerdo o nome da clínica, onde trabalhava na altura, em letras grandes e amarelas. Por baixo, de forma mais modesta, o nome da música. E, numa terceira linha, em letras ainda mais pequenas, o nome do compositor.

No canto superior esquerdo da partitura, para a qual olho agora, está retratada, de forma tão simples, a grande contradição da minha vida. O dever que sempre me foi tão grande e pesado e pouco natural, tão longe da minha própria natureza, ocupando o primeiro lugar na primeira linha em letras grandes e chamativas, contrapondo com o que para mim sempre foi prazer, tranquilidade, poesia, a transbordar do meu coração tão pouco prático, em letras bem desenhadas e modestas por baixo.

O Pedro mostrou-me esta música em 2010, quando nos conhecemos. Prometi que a aprendia e que a tocaria em 2011, aquando do nosso primeiro aniversário. O tempo passei-o a trabalhar desmesuradamente no hospital e só aprendi a música quando engravidei do Manuel em 2014 e pude, finalmente, descansar e dedicar-me de corpo e alma à música e àquele bebé tão frágil, que me obrigava a estar de repouso e que eu tinha tanto medo de perder.

À medida que vou tocando a música e me vou lembrando como foi difícil e como me deu prazer aprendê-la, apercebo-me das semelhanças entre aprender a tocar uma música e aprender a amar.

Apesar de todos as minhas imperfeições e tudo aquilo que não atingi, sinto particular orgulho por tocar esta música, que se tornou num símbolo do meu amor pelo Pedro e pelos pequeninos.


Sou uma gota de água no oceano de agradecimentos a Sakamoto. Mas não posso deixar de, eu também, prestar a minha homenagem a este senhor no meu modesto blog. Obrigada, Sakamoto.

28 fevereiro 2023

É que nem sempre é óbvio. Por exemplo:

Eu adorava as histórias do meu avô. Adorava o rapaz reguila que ainda era, adorava a serenidade que transmitia e que certamente sentia. E adorava o seu sentido de humor, sempre a brincar de forma tão divertida e carinhosa com a Dona Maria, como ele gostava de chamar a minha avó, quando a queria provocar. Penso que não me engano quando digo que era um homem verdadeiramente feliz.

Contudo, a ligação que eu tinha era com a minha avó.

Quando conheci o meu avô, ele era quase completamente surdo e falava de forma pouco articulada. Eu tinha dificuldade em compreendê-lo, estava pouco à vontade para pedir que se repetisse e não havia a possibilidade de ser ouvida.

Sim, eu admirava o meu avô, mas tinha uma ligação emocional com a minha avó. Durante as férias de verão, era a minha avó que tratava de mim, tratava da logística do dia-a-dia e contava-me as novidades. A minha avó vivia no meu mundo. O meu avô, quando falava comigo, estava a reviver as aventuras que tinha tido em Silves, 80 anos antes.
O mundo da minha avó e o meu, durante aqueles dias de verão, era o mundo da praia, dos banhos, dos almoços, da congestão e da hora de deitar. Era ela que me dava um beijo de boa noite, enquanto dizia Com Deus me deito, com Deus me acho, aqui vai a Margarida pela cama abaixo.

A minha avó não era particularmente carinhosa, nem divertida, nem interessante. Era uma mulher do seu tempo. Não demonstrou interesse em prosseguir os estudos, não lia ou lia pouco, não gostava particularmente de crianças e seguia fielmente a telenovela. Sinto que, em criança e mesmo em adulta, nunca a conheci verdadeiramente. Mas tratava de mim e da minha irmã diligentemente durante as férias, vivíamos o dia-a-dia de forma tranquila e cozinhava o que acabariam por se tornar alguns dos meus pratos favoritos.

Foi por ela que, há uns anos, chorei de saudade, quando me apercebi que nunca mais iria comer carapaus assados como só ela os fazia, todos os dias durante um mês, apesar do cheiro e do trabalho, para mim e para a minha irmã, tão apaixonadas que nós as duas éramos por aquele mimo de verão.

Sentada na cadeira, atravessando o assento ligeiramente na diagonal, sorria de forma tímida e soltava uma risada seca e curta que eu adorava, enquanto alisava o avental com a mão. Nela também a menina que tinha sido, a menina que ainda era. A menina que eu não conhecia para lá daquela risada tímida.

Ser honesto nem sempre é óbvio. Saber ser honesto é difícil porque nós próprios nos conhecemos mal. Eu cresci a ouvir que o meu avô era uma pessoa admirável. E era-o, certamente. Mas eu gostava muito era da minha avó, de quem nunca falei aqui até hoje. Gostava muito dela e senti muito a sua falta quando morreu, tão longe que eu estava dela na altura e sinto, ainda hoje, a sua falta.

17 fevereiro 2023

 "Andamos neste mundo a contar histórias



as que inventamos,

as que escutamos,

as que vivemos.



Em todos os lugares, se conta.


Toda a terra conta."



Podcast Terra que Conta. De boca em boca.