20 julho 2013

Arrumei as cartas da Kiki num dossier dentro de micas. Entre aulas de sapateado, churrascos em casa de amigos e namorados distribuídos por diferentes cidades, os anos passavam e as cartas dela entravam na minha vida e iam enchendo-a de cor. As minhas cartas eram contemplativas, melancólicas e quase insuportavelmente descritivas. Partiam de Portugal, cruzavam o oceano e imagino-as a aterrarem primeiro nos olhos dela e logo dentro de um grande baú de recordações num mar confuso de cartas dos mais variados amigos e namorados. Não obstante, ela respondia entusiasmada, decorando as folhas de papel com alegres autocolantes e muitos pontos de exclamação. Quando éramos mais novas e antes de ela partir para o Brasil, costumava pegar em mim, pendurar-me à sua cintura pelas pernas e rodopiar comigo até cairmos. E, mais tarde, quando nos reencontrámos em Munique, foi buscar-me ao aeroporto vestida de Bavariana e passeou-me pelos Biergarten e pelos bares de Munique, falando sobre as suas aventuras e desaventuras como o fizera por carta durante tantos anos. Bebemos, falámos, dançámos e rimo-nos. Continuava com mais vinte centímetros do que eu, o cabelo liso e louro pelo meio das costas e aquela pronúncia, que em livros de estudo se torna tão enervante, mas que nela sempre foi irresistível.

Fim-de-semana livre é assim :)

19 julho 2013

A minha segunda década de vida foi, das três, a mais infeliz. E assim, por recalcamento ou apenas por conveniência, acabei por me tornar toda eu infância e anos trinta. A maior parte dos acontecimentos entusiasmantes da minha infância ocorreram na minha imaginação. Os restantes ocorreram do outro lado do oceano, em São Paulo e, mais precisamente, em Boituva, na personagem incrível que era a minha amiga Kiki. 

17 julho 2013

Recentemente vistos...

Lore, da realizadora australiana Cate Shortland (2012). Tudo foi fácil na minha adolescência e por isso cresci devagar, sem pressa. Tao devagar que, no final da faculdade, parecia ainda uma criança na atitude, linguagem, pensamentos, sonhos e ilusões. E ainda hoje não estou muito diferente. A opinião dos meus pais nunca destoou da minha. Desde os 18 que cruzo o mesmo quadrado do que eles em cada eleição. Nunca amadureci. E se segui alguns dos meus próprios interesses, fi-lo apenas por paixão, nunca por maturidade. Uma personalidade diferente, característica de irmã mais velha por exemplo, teria determinado um tipo de crescimento diferente, mas eu sou o bebé da família ('it happens, so'...) cronologicamente e por feitio. Quando finalmente me deparei com as primeiras frustrações e obstáculos, já era demasiado tarde: sempre fui irremediavelmente infantil. Ainda que olhe agora para os internos mais novos e os ache desesperadamente jovens, a verdade é que ainda hoje o meu discurso é ingénuo e os meus pensamentos superficiais. As tragédias que vivi limitaram-se àquelas escritas e interpretadas por mim dentro das quatro paredes do meu quarto. É óbvio que uma adolescência perturbada condiciona um sofrimento que não desejo a ninguém, mas é também (potencialmente) geradora de pessoas muito mais interessantes do que eu. Não é bom nem mau. É como é. Em Lore assistimos ao desabrochar de uma adolescente na adversidade, do ponto de vista intelectual, emocional e sexual. E o filme é lindo. Fiquei ainda com curiosidade de ver a primeira longa metragem para cinema desta realizadora, Somersault (2004), também sobre um final de adolescência perturbado por motivos bem diferentes dos de Lore.

Camille Claudel 1915, de Bruno Dumont (2013). Fiquei com sentimentos ambíguos em relação ao filme. É sempre maravilhoso ver a Juliette Binoche no grande ecrã e o filme transmite bem a sensação de vazio e claustrofobia que Camille Claudel deve ter sentido durante o seu internamento ad eternum no asilo. Mas vazio é sempre vazio.