Sabemos que batemos no fundo quando vamos a um concerto de Mafalda Veiga e, enjoados, saímos sozinhos do recinto a meio e acabamos a noite a tentar subornar o senhor dos peluches, sem sucesso, numa tentativa desesperada de trazer o Winnie the Pooh para casa.
14 junho 2010
Qualquer estudante de saúde, algures durante o curso, acreditou piamente sofrer de aneurisma da aorta abdominal. Mas essa era a altura em que éramos magros e, por isso, a aorta palpava-se ou via-se mesmo a pulsar barriga fora. Hoje já lá vão 12 anos e mais 12 quilos e, por essa razão, surpreendi-me quando, a seguir a correr na minha passadeira de dondoca, deito-me no chão e dou de caras com ela, a aorta, a pulsar alegremente mesmo em frente ao meu nariz, que é como quem diz, mesmo abaixo do meu umbigo. Não quero parecer precipitada, mas acho que está na altura de me despedir. Adeus, mundo cruel.
Filmes vistos recentemente
Juan José Campanella - El Secreto de Sus Ojos. A mistura deliciosa entre as duas histórias e a amizade comovente entre os dois colegas. E, depois, claro, o suspense e o soco no estômago. Adorei.
Luca Guadagnino - Io sono l'Amore. Fisicamente bonito e exagerado. Uma ópera cinematográfica. Os diálogos são pobres, mas quando vamos à ópera, com todo aquele cantalorar geralmente numa língua estrangeira, mesmo com o libretto à mão, nem sequer os costumamos perceber, pois não?
Kelly Reichardt - Wendy and Lucy. Capta apenas um instante. Muito bonito e comovente.
Leituras recentes
Marguerite Duras - La Douleur. As páginas que a autora encontrou por acaso, como diz num pequeno prefácio do próprio livro, e que não se lembrava de ter escrito. "... uma fenomenal desordem do pensamento e do sentimento, em que não ousei tocar - e face a ela, a literatura envergonha-me.", nas palavras dela. O livro fala sobre o dia-a-dia de uma mulher que espera o marido, no pós-guerra imediato, sem saber se este se encontra vivo ou morto. Outros pequenos contos, fictícios ou não, seguem-se a essa primeira história. Fortíssimo. E, sobretudo, palpável. Como se estivéssemos lá a viver como personagens dos contos. Já tinha tido um sentimento semelhante quando li O Amante.
J.D. Salinger - Franny and Zooey. Um estilo inconfundível (digo eu que só li dois livros dele... este e o The Catcher in the Rye). Muito directo, seco, irónico, com um sentido de humor brilhante, sem lamechices, mas fazendo chorar as pedras da calçada. Neste livro a relação entre os vários membros da família, sobretudo sob o ponto de vista de dois deles, as suas dúvidas espirituais e as relações tipicamente disfuncionais que qualquer família tem e que esta tem de forma ao mesmo tempo dramática e cómica.
Fernando Pessoa na pele de Bernardo Soares - O Livro do Desassossego. O meu livro de cabeceira. Já o li e reli milhões de vezes e identifico-me com quase tudo o que diz e passo a vida a descobrir passagens novas. Para além do mais, é muito lisboeta. Cada vez que leio ou releio mais umas páginas, e salvaguardadas as devidas distâncias entre um tipo genial e... eu, chego sempre à mesma conclusão: é bom saber que não vou ser a única neurótica que esta cidade viu nascer, crescer e morrer.
07 junho 2010
03 junho 2010
Entraste em mim primeiro com os olhos, depois com os lábios, a língua, os dedos, as mãos e, por fim, com o corpo todo. Entraste em mim com a determinaçao própria de quem sabe que o que deseja lhe pertence. E desde aquele primeiro olhar, senti as artérias encherem-se de sangue e o coração a transbordar. Estava a acordar depois de um longo ano de ausência. Sabemos que a nossa capacidade para o bem iguala a nossa capacidade para o mal. Isso é trágico, porque nunca estamos a mais do que dois pensamentos de distância um do outro e, no entanto, não mais voltaremos a ser um só. Contudo, estou feliz. Ensinaste-me hoje que ainda sou capaz de amar. E depois de me começar a sentir, deixei de ter pressa.
01 junho 2010
Há luz sem lume aceso, mas sem amar o calor
Passaram-se 6 anos e ainda me lembro do nó na garganta que senti quando acabei pela primeira vez uma relação. Não sabia, na altura, que me viria a apaixonar várias vezes e que, várias vezes, voltaria a sentir esse nó na garganta, com o terminar de outras relações.
Mas desta vez foi diferente. Invadida pelo vazio de não sentir nada, chorei. E ele, sem perceber, Desculpa. Numa só palavra, a distância que nos separava. Quis dizer... Estás a perceber tudo mal, eu é que peço desculpa. Quero aquele nó na garganta, quero ver-te longe, odiar-te. Quero saber que ainda sou capaz de amar e de morrer de amor. Quero morrer de amor. Quero saber que te amei. Que não estive contigo só para não estar sozinha. Que não foste para mim só um amigo. A dedicação que eu posso ter por um amigo pode, de facto, e fê-lo por diversas vezes, impressionar, mas não arde e não dói, não faz cicatriz, não arrisca e também não explode de alegria num fogo-de-artifício de emoções. Eu, no passado, abdiquei desse amor, exactamente por doer tanto. E agora fiquei vazia. Tão vazia, que nem o nó na garganta sinto, na hora de, uma vez mais, dizer adeus.
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