01 janeiro 2022

Os meus avós rezavam o terço todas as noites. Eu estava com eles durante os meses de Verão. Via-os à noite, na varanda, que era pequena e dava apenas de esguelha para o mar - uma tira azul e estreita ao fundo da rua. O meu avô preferia esta varanda à nossa varanda. A nossa varanda era grande e estava debruçada sobre o mar, como um barco. Nós adorávamo-la. A varanda do meu avô era pequena e estava debruçada sobre três ruas. Encontrava-se à entrada de Armação de Pêra, motivo de particular orgulho para o meu avô, o motivo para mim ainda misterioso. Era da sua varanda, que o meu avô via, ao longo dos meses de Verão, as camionetas e os carros que, antigamente, viajavam ao ritmo das quinzenas. Via a pizzaria à qual nunca ia, a casa nobre antiga na esquina e, finalmente, via o mar, no fundo de uma das ruas, a tal tira azul por detrás do casino velho.

O meu avô passava grande parte do seu dia na varanda. Face serena, muitas vezes a sorrir ligeiramente. Sentava-se numa cadeira de plástico, com um formidável apoio de costas. Adorava aquela cadeira. Usava calções e os pés deixava-os a repousar num banco ou numa cadeira em frente à sua. Tinha as pernas magras e sem pelos, notoriamente brancas, sobretudo quando comparadas com as da minha avó, morenas do sol. As mãos deixava-as entrelaçadas no colo ou ficavam a segurar um livro, tipicamente um western. À noite, depois de secar e guardar a loiça que a minha avó lavava, arrumava as cadeiras da mesa, caracteristicamente na diagonal. Punha o pano bordado a crochê e a taça com a fruta decorativa no centro da mesa e ia sentar-se na varanda. A minha avó ficava sempre a arrumar mais algumas coisas, sentava-se depois uns minutos a ver televisão e ia ter a seguir com o meu avô à varanda. Nessa altura rezavam, então, o terço.

A minha avó, muito direita, terço no regaço, corpo balançando muito subtilmente para trás e para diante. O meu avô, com a sua postura habitual, pernas esticadas, mãos entrelaçadas.

Os dois partilhando a mesma fé, reforçando os laços que os uniam. Meditando.

Nunca pediam que eu rezasse com eles e eu, habitualmente, também não o fazia. Eu gostava de os observar.

Durante muitos anos, o ritual deles fazia parte do meu ritual de Verão e contribuia para o sentimento tão pleno de paz que eu sempre senti quando estava com eles. Os meus avós davam-me muito espaço e eu saboreava cada minuto daqueles dias compridos. Sestas longas, tardes no quarto a ensaiar desmaios ou mortes trágicas, a ler, a ouvir música. Comíamos diariamente carapaus assados, que nós adorávamos e que acompanhávamos com pão de São Marcos e salada de tomate algarvia. E havia ainda aqueles banhos intermináveis no mar. Durante muitos anos, aguardei, ora com ansiedade, ora com melancolia as férias de Verão.

O Pedro ofereceu-me um telefone novo. Protestei. Não precisava de um telefone novo, o meu estava óptimo. Quando troquei de telefone, perdi os contactos recentes e retomei contactos que não me interessavam, do tempo da faculdade. Perdi as minhas preciosas fotografias, todas aquelas luas gigantes, os meus pequeninos, as nossas últimas férias de Verão. Senti-me perdida. Quando, pela primeira vez, fui por o despertador, hesitei. Queria acordar às 6h, como sempre, para conseguir tomar banho e preparar o pequeno-almoço para os pequeninos, antes de o caos do dia-a-dia se instalar. Mas o telefone complicava a minha vida, com o que me pareceu ser uma infinidade de perguntas. Acabei por decidir 'ir dormir' às 23 horas e começar a 'relaxar' três horas antes.

Se falo nisto agora, é por dois motivos.

O primeiro. Os serões de paz que tenho e temos tido nos últimos meses, desde que deixei de usar o telefone à noite. O espaço, a paz da minha adolescência. Um sentimento de gratidão - to whom it may concern.

O segundo. O meu avô teria feito hoje 109 anos. Com o seu sorriso e a sua tranquilidade, o seu ar de rapaz malandro, ainda presente em mim.

02 abril 2020

C'est tellement mystérieux, le pays des larmes. Antoine de Saint-Exupéry in Le Petit Prince

07 julho 2018

Lembro-me de os meus sobrinhos vestirem pijamas desfasados, ou misturas que a mim me pareciam estranhas, como camisas de dormir de verão por cima de pijamas quentes. Eu sempre adorei estar a condizer, idealmente de uma cor só ou, então, às riscas. Aquele visual para dormir, bonecos sobre bonecos, verão sobre inverno, não encaixava no meu sentido estético. Mas eles pareciam felizes. Tão felizes mesmo. Passado este tempo todo, compreendo os meus sobrinhos. O dia já é tão carregado de regras, de obrigações, de proibições, de pressas. Hoje em dia, à hora de dormir deixo os meus filhos darem asas à imaginação, ao conforto e ao mimo na forma do pijama escolhido por eles. Todas as combinações são possíveis. É de pijamas assim que se alimentam os sonhos.

14 junho 2018

Quero escrever um poema devagar, ao rito das férias de verão da minha adolescência.

06 junho 2018

Tenho medo de nao chegar suficientemente profundo, de para sempre nadar à superfície, não atingindo a mais bela maneira de contar o dia que passou, todos os dias que passaram antes de chegarmos. Tenho receio de me perder em pressas inúteis, comentários mesquinhos, profissões sérias. 

17 maio 2018

Vi o La La Land (Damien Chazelle, 2016) e adorei, tal como aos 10 anos adorava os meus musicais ingénuos, divertidos e apaixonados, a transbordarem com as cores com as quais eu queria pintar a minha vida. Os meus musicais: My Fair Lady, Música no Coração, Mary Poppins, Annie e alguns da Disney. Com nostalgia, procurei a versão de My Favourite Things do Coltrane que o Carlos me mostrou na faculdade. A música encontrei-a na banda sonora do Shame onde reencontrei o solo deslumbrante de Carey Mulligan, o romântico Chet Baker e o meu Glenn Gold. Oh, se ao menos o mundo se movesse a Bach.

13 fevereiro 2018

Obrigada por me teres mostrado a lua. Nao a vi pintada na tela mas esta noite vou vê-la pintada no céu escuro. De manhã estava a convencer a nossa pequenina a fazer chichi no penico e perdi a lua. Mas esta noite vou ver. A nossa casa transborda de poesia e cansaço. Em breve vou transformar toda a nossa poesia em verso. A Rita a fazer chichi no penico, o Manuel a pedir festas nas costas, os dois a lavarem-me os dentes, a vestirem o boneco, a jogarem com a bola, a viajarem de carro até à savana, a mergulharem no oceano imenso da nossa sala, a dançarem contigo, a construírem puzzles até à lua. Tenho saudades de ver poesia cá fora, no entanto. Há vários meses que o céu, coberto de nuvens, não deixa ver a lua. Mas esta noite no céu escuro ou no quentinho do nosso quarto a ouvir Sufjan Stevens, a ler o Russel e a fazer-te festinhas... esta noite vou ver poesia.